terça-feira, 26 de janeiro de 2010
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Entrevista com o artista
“A árvore já é a imagem do mundo” é uma frase de Gilles Deleuze e Félix Guattari que tomei emprestado para elaborar a exposição. Na verdade, tento, por meio de materiais precários e nobres, organizar códigos e signos que traduzam a importância da árvore na atualidade.
A exposição, de certa forma, visa interagir e promover a ecologia por meio da arte, por que não? Mas não posso esquecer também de que o sentido essencial é estabelecer relações entre a arte e o meio ambiente e a árvore que é um signo, um símbolo ecológico. Ela reverbera no espaço-tempo, evidenciando códigos que possam abrir possibilidades de comunicação, de uma consciência e reflexão ecológica, haja vista que ainda hoje, em pleno século XXI, vemos com passividade, pessoas a todo o momento, jogando plásticos, papéis e lixo em geral, nas ruas das cidades. Imagino que esta exposição é um processo de imersão que amplia as subjetividades na vida, tanto individual quanto coletiva. Daí penso nos conceitos de “arborescência”, definidos por Gilles Deleuze e Félix Guattari em Mil Platôs. Ainda estamos vivendo um momento muito primitivo quando se trata de uma reflexão ecológica. Muitas pessoas preferem cultivar flores e plantas de plástico a cuidar de plantas verdadeiras. O simulacro substituindo o real. Isso eu chamo de cultura do tempo plástico. São conceitos que fundamentam o que venho desenvolvendo já há algum tempo, que é o projeto ações heliotropistas, originado a partir do fenômeno do movimento e direção das plantas buscando a ação dos raios solares. Busco uma analogia com a vida e a luta dos seres humanos pela sobrevivência. É uma espécie de radiografia para refletir sobre o homem e a sua organização social, sua terra, seus princípios, por meio de exemplos oriundos da natureza. Além disto, a árvore heliotrópica é metáfora da luta travada pelos seres vivos no mundo. Uma curiosidade é que a árvore sempre esteve presente na arte, daí surgiu a idéia de fundamentar ainda mais, esta exposição, configurando signos abstratos, simples ou complexos, e fazer isso funcionar em uma outra dimensão. É aprofundar esse assunto tão em voga, seja por meio de projetos sociais, atividades artísticas, leis, etc. Busco potencializar as subjetividades humanas e fixar através da imagem, uma consciência de equilíbrio planetário que deverá estar presente na forma de viver e pensar das próximas gerações. São as “revoluções moleculares” ou “pequenas utopias” como possibilidades de transformação.
CORREIOS – Você ousou ao trazer para o trabalho elementos como folhas, caules, galhos, hortaliças... Quanto tempo levou para compor esse ambiente?
Não sei lhe responder precisamente, não sei se há um tempo exato para se criar e elaborar um trabalho artístico ou compor um ambiente. Ele acontece na medida em que as coisas vão se encaixando, se processando, é a minha vida. Às vezes pode ser em um instante e outras vezes, pode levar um longo tempo para criar e organizar esse ou aquele trabalho.
Esses elementos que você cita, são apropriados para transmitir algo e que muitos deles precisam ser nutridos (como as plantas). É um trabalho processual, transformador, em constante progresso. Enquanto a exposição estiver na galeria, terei que cuidar, regar, cultivar as plantas e hortaliças. Essas ações resgatam a jardinagem, a horta, a vivência junto a natureza. São trabalhos manuais que requerem cuidados, trabalhar com as mãos. Por meio desses elementos, concebo um fazer artístico que classifico como relacional.
Continuando respondendo a sua pergunta, esses materiais expressivos sempre estiveram presentes dentro das artes visuais. Mas o que valorizo, quando se fala desses materiais exibidos nesta exposição, é a incidência da luz do sol sobre uma pequena árvore pau-brasil, ou seja, na exposição contém também o imaterial, sem necessariamente, usar dos recursos tecnológicos. Isso é heliotrópico.
Ampliar e enriquecer o território humano são partes, hoje, integrantes da arte, portanto, esses materiais sensíveis na qual me aproprio, é para falar de germinação, crescimento e vida, daquilo que permanece invisível às pessoas. São instalações que tento traçar uma história que fala da natureza e da natureza humana.
CORREIOS – O termo eco está em voga. As “eco-bags”, “eco-moda”, as discussões sobre o clima e o encontro de Copenhague. A eco-arte também é uma tendência?
Nunca é demais falar de ecologia. O que se chama de eco-arte é apenas um termo empregado para definir a linguagem de trabalhos de artistas que tem como atividade principal o conhecimento voltado para a natureza. Artistas que buscam refletir sobre as questões ambientais. É um termo utilizado para designar propostas construídas a partir de materiais achados na natureza para expor e dialogar com o mundo. A Arte da Terra, como também é chamada, muitas vezes elaboradas em grandes dimensões, já refletia preocupações com a natureza.
Mas as instalações desta exposição são simples experiências artísticas que coloco adaptados a galeria. Pois, a meu ver, a arte pode ajudar a repensar o tempo atual, pode estar a serviço da ecologia. Ela pode ser processual e por isso mesmo se aproxima do ativismo. A arte que se faz na natureza ou a partir dela, surgiu desde a década de 1960. Devo salientar que não é uma tendência, e sim uma legítima criação de subjetividades, uma nova maneira de ver o mundo. Um pensamento, uma mentalidade. Ela surgiu como uma espécie de reação à lei da produção material hostil. Esses projetos artísticos podem ser entendidos como práticas em site-specific em busca de uma arqueologia ou apropriação nômade de um lugar. Devemos citar o artista plástico alemão Joseph Beuys que foi um dos fundadores do Partido Verde, ainda na década de 1960. Ele era um artista ativista e sempre associou o seu trabalho às questões ecológicas. Portanto, desde há muito tampo a arte tem refletido sobre a problemática do meio ambiente.
CORREIOS – Willyams Martins é um artista que gosta de inovar em suas exposições. Aliás, já recebeu, inclusive o prêmio BRASKEM de Cultura e Arte, em 2006 com o trabalho que realizou com arte de rua e grafite, há alguma contribuição do grafite com “a árvore já é a imagem do mundo” ?
Sim. Na exposição consta um trabalho que é intitulado compartilhamento verde, onde os visitantes são convidados a fazerem esboços, desenhos ou escritas sobre o que eles quiserem. Posso dizer que esse trabalho é realizado por meio de carvão vegetal sobre uma parede branca e não deixa de ser um grafite. E tem também desenhos de pequenos machados, onde imprimo em superfícies de troncos de árvores. Mas esses trabalhos são diversificados, pois a minha preocupação atualmente é trabalhar por meio da arte contemporânea (com o auxílio de signos, objetos, formas e gestos), linhas de fuga individuais ou coletivas, construindo propostas nômades, onde possa elaborar situações e espaços de convívio social para propor objetos produtores de “socialidades”, interatividades, contatos, atitudes. Ou seja, trabalhar no sentido colaborativo, de uma maneira mais participativa. Isto também é grafite.
CORREIOS – Na sua opinião, é possível haver equilíbrio entre a natureza e o homem?
Sim. Agora, em termos artísticos, a meu ver, o artista precisa trabalhar mais estas questões. Ainda hoje se perdura dentro da arte, modelos amorfos. É necessário realizar exposições mediadoras, recriar novos modelos de práticas artísticas voltadas para a natureza. Explorar mais os vínculos sociais, mesmo que os trabalhos sejam de ocupação em galerias e não propriamente em espaços públicos. Na atualidade, com o crescimento do individualismo, característica do nosso tempo, compreender-se como ser social, coletivo, é definidor para uma mentalidade de compartilhamento, fundamental para o equilíbrio do planeta e conseqüente sobrevivência humana.
É possível um dia, haver esse equilíbrio. O filósofo alemão Karl Marx disse que “O homem vive da natureza (...) e tem que manter com ela um diálogo ininterrupto se não quiser morrer”. É claro que quando se fala de ecologia, estamos falando também de justiça social e de manutenção da qualidade do meio ambiente. A ecologia já se instaurou na história da humanidade como super necessária ao homem. Se falamos hoje em dia de natureza, não podemos deixar de falar de ecologia que é, também, o estudo de relacionamentos entre organismos vivos com o seu meio ambiente, fator fundamental para a nossa sobrevivência. O desequilíbrio existe, a força produtiva ameaça o planeta, pois o homem continua esgotando os recursos naturais e ainda não se criou tecnologia que solucionasse isso. São aspectos que precisam ser repensados. A arte reage frente à sociedade na qual dominam as leis e o artista pode conseguir se afirmar como artista e como ser político, atuante, respondendo aos problemas da humanidade. Mas, infelizmente, o homem dedica-se tanto a dominar a natureza, que se esquece dele próprio.
Ações Heliotropistasmage
"A árvore já é uma imagem do mundo" é uma frase de Gilles Deleuze e Félix Guattaari que tomei emprestado para elaborar esta exposição. A meu ver, a exposição alcança, com suas proposições, uma atitude tão importante quanto um replantio em termos conceituais, uma celebração de pequenas partes da natureza onde a árvore encontra um acolhimento.
Repensar aspectos como germinação, subjetividade, crescimento e multiplicidade são propostas que surgem por meio de micro-comunicações, mostrando aquilo que advém dos seres vivos. Os trabalhos expostos são percebidos quando os caminhos “arborescentes” de nossas vidas nos apontam para uma ação, digamos, ecológica, sustentada por outros pequenos signos expostos, tentando captar suas interações, produzindo, assim, um “rizoma” variado de entrelaçamentos. Os recursos composicionais vão crescendo, se processando, buscando
direções (como as plantas em busca da luz), preenchendo o ambiente de significações. Esses elementos da natureza são também conceituais. Discute-se o visível e o invisível, vida e morte, situando o tempo predominante – são os trabalhos que contém plantas-símbolos – motivações essas idealizadas através de materiais realçados para falar de esperança.
sua real importância na atualidade e, sim, mostrar a energia, o percurso de uma direção, para tentar realizar deslocamentos dos organismos vivos.
Anéis de ouro, plantas, diamantes, caules, raios de sol, tijolos, lápis crayon são signos que criam vínculo, aproximando o espectador da árvore como imagem do mundo, sugerindo novas possibilidades de vida que se aglutinam, manifestando elementos de ligação, nos quais se apresenta o caráter subjetivo da exposição para formatar a obra.
Willyams Martins

Caminhos da Árvore
dimensões variadas
areia, sementes, adubo, plantas, relógio
2009
