terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Entrevista com o artista

CORREIOS – Sua mais nova exposição foi baseada no livro Mil Platôs, essa obra que procura analisar a relação entre rizoma (caule e planta) e a inter-relação de diferentes conceitos do dia-a-dia. Como surgiu a idéia de trazer para a exposição o conceito de a árvore como reflexo do mundo?
“A árvore já é a imagem do mundo” é uma frase de Gilles Deleuze e Félix Guattari que tomei emprestado para elaborar a exposição. Na verdade, tento, por meio de materiais precários e nobres, organizar códigos e signos que traduzam a importância da árvore na atualidade.
A exposição, de certa forma, visa interagir e promover a ecologia por meio da arte, por que não? Mas não posso esquecer também de que o sentido essencial é estabelecer relações entre a arte e o meio ambiente e a árvore que é um signo, um símbolo ecológico. Ela reverbera no espaço-tempo, evidenciando códigos que possam abrir possibilidades de comunicação, de uma consciência e reflexão ecológica, haja vista que ainda hoje, em pleno século XXI, vemos com passividade, pessoas a todo o momento, jogando plásticos, papéis e lixo em geral, nas ruas das cidades. Imagino que esta exposição é um processo de imersão que amplia as subjetividades na vida, tanto individual quanto coletiva. Daí penso nos conceitos de “arborescência”, definidos por Gilles Deleuze e Félix Guattari em Mil Platôs. Ainda estamos vivendo um momento muito primitivo quando se trata de uma reflexão ecológica. Muitas pessoas preferem cultivar flores e plantas de plástico a cuidar de plantas verdadeiras. O simulacro substituindo o real. Isso eu chamo de cultura do tempo plástico. São conceitos que fundamentam o que venho desenvolvendo já há algum tempo, que é o projeto ações heliotropistas, originado a partir do fenômeno do movimento e direção das plantas buscando a ação dos raios solares. Busco uma analogia com a vida e a luta dos seres humanos pela sobrevivência. É uma espécie de radiografia para refletir sobre o homem e a sua organização social, sua terra, seus princípios, por meio de exemplos oriundos da natureza. Além disto, a árvore heliotrópica é metáfora da luta travada pelos seres vivos no mundo. Uma curiosidade é que a árvore sempre esteve presente na arte, daí surgiu a idéia de fundamentar ainda mais, esta exposição, configurando signos abstratos, simples ou complexos, e fazer isso funcionar em uma outra dimensão. É aprofundar esse assunto tão em voga, seja por meio de projetos sociais, atividades artísticas, leis, etc. Busco potencializar as subjetividades humanas e fixar através da imagem, uma consciência de equilíbrio planetário que deverá estar presente na forma de viver e pensar das próximas gerações. São as “revoluções moleculares” ou “pequenas utopias” como possibilidades de transformação.

CORREIOS – Você ousou ao trazer para o trabalho elementos como folhas, caules, galhos, hortaliças... Quanto tempo levou para compor esse ambiente?
Não sei lhe responder precisamente, não sei se há um tempo exato para se criar e elaborar um trabalho artístico ou compor um ambiente. Ele acontece na medida em que as coisas vão se encaixando, se processando, é a minha vida. Às vezes pode ser em um instante e outras vezes, pode levar um longo tempo para criar e organizar esse ou aquele trabalho.
Esses elementos que você cita, são apropriados para transmitir algo e que muitos deles precisam ser nutridos (como as plantas). É um trabalho processual, transformador, em constante progresso. Enquanto a exposição estiver na galeria, terei que cuidar, regar, cultivar as plantas e hortaliças. Essas ações resgatam a jardinagem, a horta, a vivência junto a natureza. São trabalhos manuais que requerem cuidados, trabalhar com as mãos. Por meio desses elementos, concebo um fazer artístico que classifico como relacional.
Continuando respondendo a sua pergunta, esses materiais expressivos sempre estiveram presentes dentro das artes visuais. Mas o que valorizo, quando se fala desses materiais exibidos nesta exposição, é a incidência da luz do sol sobre uma pequena árvore pau-brasil, ou seja, na exposição contém também o imaterial, sem necessariamente, usar dos recursos tecnológicos. Isso é heliotrópico.
Ampliar e enriquecer o território humano são partes, hoje, integrantes da arte, portanto, esses materiais sensíveis na qual me aproprio, é para falar de germinação, crescimento e vida, daquilo que permanece invisível às pessoas. São instalações que tento traçar uma história que fala da natureza e da natureza humana.

CORREIOS – O termo eco está em voga. As “eco-bags”, “eco-moda”, as discussões sobre o clima e o encontro de Copenhague. A eco-arte também é uma tendência?
Nunca é demais falar de ecologia. O que se chama de eco-arte é apenas um termo empregado para definir a linguagem de trabalhos de artistas que tem como atividade principal o conhecimento voltado para a natureza. Artistas que buscam refletir sobre as questões ambientais. É um termo utilizado para designar propostas construídas a partir de materiais achados na natureza para expor e dialogar com o mundo. A Arte da Terra, como também é chamada, muitas vezes elaboradas em grandes dimensões, já refletia preocupações com a natureza.
Mas as instalações desta exposição são simples experiências artísticas que coloco adaptados a galeria. Pois, a meu ver, a arte pode ajudar a repensar o tempo atual, pode estar a serviço da ecologia. Ela pode ser processual e por isso mesmo se aproxima do ativismo. A arte que se faz na natureza ou a partir dela, surgiu desde a década de 1960. Devo salientar que não é uma tendência, e sim uma legítima criação de subjetividades, uma nova maneira de ver o mundo. Um pensamento, uma mentalidade. Ela surgiu como uma espécie de reação à lei da produção material hostil. Esses projetos artísticos podem ser entendidos como práticas em site-specific em busca de uma arqueologia ou apropriação nômade de um lugar. Devemos citar o artista plástico alemão Joseph Beuys que foi um dos fundadores do Partido Verde, ainda na década de 1960. Ele era um artista ativista e sempre associou o seu trabalho às questões ecológicas. Portanto, desde há muito tampo a arte tem refletido sobre a problemática do meio ambiente.

CORREIOS – Willyams Martins é um artista que gosta de inovar em suas exposições. Aliás, já recebeu, inclusive o prêmio BRASKEM de Cultura e Arte, em 2006 com o trabalho que realizou com arte de rua e grafite, há alguma contribuição do grafite com “a árvore já é a imagem do mundo” ?
Sim. Na exposição consta um trabalho que é intitulado compartilhamento verde, onde os visitantes são convidados a fazerem esboços, desenhos ou escritas sobre o que eles quiserem. Posso dizer que esse trabalho é realizado por meio de carvão vegetal sobre uma parede branca e não deixa de ser um grafite. E tem também desenhos de pequenos machados, onde imprimo em superfícies de troncos de árvores. Mas esses trabalhos são diversificados, pois a minha preocupação atualmente é trabalhar por meio da arte contemporânea (com o auxílio de signos, objetos, formas e gestos), linhas de fuga individuais ou coletivas, construindo propostas nômades, onde possa elaborar situações e espaços de convívio social para propor objetos produtores de “socialidades”, interatividades, contatos, atitudes. Ou seja, trabalhar no sentido colaborativo, de uma maneira mais participativa. Isto também é grafite.

CORREIOS – Na sua opinião, é possível haver equilíbrio entre a natureza e o homem?

Sim. Agora, em termos artísticos, a meu ver, o artista precisa trabalhar mais estas questões. Ainda hoje se perdura dentro da arte, modelos amorfos. É necessário realizar exposições mediadoras, recriar novos modelos de práticas artísticas voltadas para a natureza. Explorar mais os vínculos sociais, mesmo que os trabalhos sejam de ocupação em galerias e não propriamente em espaços públicos. Na atualidade, com o crescimento do individualismo, característica do nosso tempo, compreender-se como ser social, coletivo, é definidor para uma mentalidade de compartilhamento, fundamental para o equilíbrio do planeta e conseqüente sobrevivência humana.
É possível um dia, haver esse equilíbrio. O filósofo alemão Karl Marx disse que “O homem vive da natureza (...) e tem que manter com ela um diálogo ininterrupto se não quiser morrer”. É claro que quando se fala de ecologia, estamos falando também de justiça social e de manutenção da qualidade do meio ambiente. A ecologia já se instaurou na história da humanidade como super necessária ao homem. Se falamos hoje em dia de natureza, não podemos deixar de falar de ecologia que é, também, o estudo de relacionamentos entre organismos vivos com o seu meio ambiente, fator fundamental para a nossa sobrevivência. O desequilíbrio existe, a força produtiva ameaça o planeta, pois o homem continua esgotando os recursos naturais e ainda não se criou tecnologia que solucionasse isso. São aspectos que precisam ser repensados. A arte reage frente à sociedade na qual dominam as leis e o artista pode conseguir se afirmar como artista e como ser político, atuante, respondendo aos problemas da humanidade. Mas, infelizmente, o homem dedica-se tanto a dominar a natureza, que se esquece dele próprio.

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